Livros, velas, candelabros e pensos adesivos
Livros, velas, candelabros e pensos adesivos

Análise cultural, Análise de bens

Livros, velas, candelabros e pensos adesivos

A perda de função valoriza os produtos. Por isso, o simbolismo dos livros, das velas, dos candelabros e dos pensos adesivos resulta, em parte, da sua inutilidade.

A perda de função valoriza os produtos. Por isso, o simbolismo dos livros, das velas, dos candelabros e dos pensos adesivos resulta, em parte, da sua inutilidade.

Desde o surgimento dos livros digitais que os livros em papel deixaram de ser necessários. Podem ter-se livros em papel. Então, atualmente, os livros em papel alargaram das bibliotecas, dos alfarrabistas, das salas de estar e das livrarias até aos bares, aos hotéis e às lojas de decoração. Nestas novas localizações, não são mais consultáveis ou compráveis. São antes companheiros de conversas, objetos de decoração e convites à reverência. São livros (símbolos), sem função prática.

Desde a distribuição da rede de eletricidade que as velas e os candelabros se tornaram supérfluos. Afinal, há lâmpadas em candeeiros para iluminar os espaços. Hoje, as velas, uma vez libertas da sua função de iluminar, tornaram-se capazes de significar “luxo”, “romance”, “intimismo” e “conforto”.

Desde as preocupações com a prevenção dos acidentes infantis, que os revestimentos dos parques infantis já não causam feridas nos joelhos, tendo os pensos rápidos perdido frequência de uso. Com as brincadeiras mais seguras (e caseiras) dos mais novos, os pensos adesivos ganharam novos usos. Passaram de tristes a divertidos. Deixaram de pertencer ao final menos feliz das brincadeiras para passarem a ser, eles próprios, a brincadeira. Ostentam bonecos e cores divertidas, são lúdicos e engraçados. Tornaram-se símbolos e não mais uma mera solução prática.

A perda das ocasiões de uso destes três bens, os livros em papel, as velas e os pensos rápidos, entregou-lhes uma nova capacidade para simbolizarem.
Tal e qual como a pintura, que ganhou valor social quando perdeu a sua função retratista para a fotografia, estes bens revalorizaram-se.
(Tal e qual como a pochete, a malinha inútil capaz de simbolizar formalismo em casamentos e batizados, estes três bens assumiram um novo valor.)

De facto, a substituição de certos bens por novidades, entrega aos velhos bens uma maior capacidade para simbolizarem. Porque é na perda de função que a cultura encontra a oportunidade para simbolizar.

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