A rua no quarto e o quarto na rua
A rua no quarto e o quarto na rua

Análise cultural, Análise de bens, Análise de espaços

A rua no quarto e o quarto na rua

Nas lojas, o pijama ganhou elaboração, com gamas largas e sofisticadas de estojos, chinelos, roupões e almofadas, enquanto as pessoas saem à rua de chinelos, alpercatas, calções, túnicas e leggings.

Nas lojas, o pijama ganhou elaboração, com gamas largas e sofisticadas de estojos, chinelos, roupões e almofadas, enquanto as pessoas saem à rua de chinelos, alpercatas, calções, túnicas e leggings.

Proliferam as lojas de roupa interior. Os sapatos de casa ganharam solas resistentes. O item “pijama” não é mais uma peça envergonhada. Passou a ser a peça saliente cujo padrão dita a aparência de meias, t-shirts, chinelos e sacos de toilette. As montras juntam pijamas, chinelos de quarto com saltos altos, sacos de toilette, vendas de olhos, roupões e combinações, e todos partilham o mesmo padrão. A roupa de dormir ganhou elaboração e estatuto.

Enquanto o quarto de dormir formalizou, a roupa de casa foi para fora e o vestuário exterior informalizou. Primeiro, e há já algum tempo, foi a T-shirt. A T-shirt saiu há décadas da categoria “roupa interior” para o estatuto de roupa pública. Depois foram as túnicas, os chinelos, os calções, as leggings e as alpercatas. As leggings ganharam o estatuto de peça de roupa exterior e até alavancaram a novidade jeggings. As calças de ganga justas inspiraram-se nas cintas e nos corpetes. Os soutiens inspiraram os tops que imperam nos ginásios. Os chinelos são os novos sapatos. Os chinelos da piscina e o calçado de casa, como as alpercatas e os chinelos de dedo ocupam, hoje, os centros das cidades. As túnicas saíram de casa e ocupam a rua. As camisolas ganharam as rendas das combinações.

A roupa de dentro saiu para fora e, o que no passado se escondia, é hoje revelado na rua. A rua descontraiu e a casa formalizou.

Hoje, a fronteira entre o público e o privado é menos marcada e o vestuário revela esta mudança cultural. Os ecrãs dos telemóveis, tablets e computadores esbatem a fronteira entre as casas e a rua; a Amazon equaciona fazer entregas, entrando dentro nas residências dos clientes, o quarto de dormir é partilhável nas redes sociais, os reality shows estão focados nas camas dos participantes e a intimidade ganha likes. Como o espaço doméstico passou a ser público, a roupa íntima conquistou montras, ganhou elaboração e passou a influenciar o que se veste em público.

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